Trabalho Digno
Falar de trabalho digno no campo das juventudes é reconhecer que a inserção de jovens no mundo do trabalho acontece em um cenário historicamente desigual, marcado por informalidade, baixa proteção social no caso de atividades e funções ocupadas majoritariamente por juventudes de baixa renda, barreiras de acesso e profunda desigualdade de oportunidades. Para muitos jovens, especialmente negros e periféricos, o trabalho aparece menos como escolha e mais como urgência material, o que leva a trajetórias profissionais instáveis, interrompe percursos educacionais e reduz a possibilidade de construir projetos de vida com autonomia e segurança. Nas últimas décadas, esse cenário foi aprofundado pelo avanço do trabalho plataformizado, que se apresenta como alternativa flexível e acessível, mas frequentemente reorganiza a precariedade em novos moldes, ampliando a exposição juvenil a vínculos frágeis, remuneração variável e ausência de direitos.
Essas desigualdades se tornam ainda mais evidentes quando observadas a partir de raça e gênero. A pesquisa Juventudes Negras (JUNE) mostra que a divisão racial e sexual do trabalho segue estruturando quem acessa ocupações mais valorizadas e protegidas e quem permanece concentrado em funções mais precárias, extenuantes e menos reconhecidas. Jovens mulheres negras, por exemplo, acumulam maior sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado não remunerado e estão mais presentes em ocupações ligadas ao cuidado, aos serviços e ao trabalho doméstico, enquanto jovens brancos têm maior presença relativa em posições administrativas e funções com mais estabilidade e valorização social. Isso revela que o debate sobre trabalho digno não pode ser reduzido ao acesso ao emprego: ele precisa enfrentar os mecanismos que fazem com que racismo, sexismo e desigualdade territorial organizem as trajetórias juvenis no mercado de trabalho.
É a partir desse reconhecimento que o Em Movimento compreende o trabalho digno como uma agenda estratégica para fortalecer a democracia e ampliar direitos. Nossa atuação busca conectar experiências juvenis, evidências e processos de decisão para qualificar a forma como o campo, o poder público, financiadores e organizações respondem às desigualdades no mundo do trabalho. Mais do que tratar o trabalho como uma pauta isolada, entendemos essa agenda como parte de um desafio mais amplo de garantir condições para que as juventudes vivam com dignidade, ampliem seus horizontes de futuro e participem de forma mais justa da vida econômica, social e política.
Como o Em Movimento estrutura sua atuação na agenda de Trabalho Digno:
- Produção e tradução de evidências sobre as desigualdades que atravessam as trajetórias juvenis no mundo do trabalho, com atenção às dimensões de raça, gênero, território e geração.
- Fortalecimento de narrativas públicas mais qualificadas sobre trabalho digno, enfrentando leituras simplificadas que reduzem o problema à empregabilidade ou à responsabilização individual dos jovens
- Ampliação da circulação estratégica de conhecimento, conectando dados, experiências e aprendizados a atores com capacidade de incidência sobre políticas, programas e investimentos
- Apoio à agendas intersetoriais que articulem educação, trabalho, cuidado e proteção social, reconhecendo que trajetórias dignas exigem respostas integradas.
- Fortalecimento de organizações e coletivos jovens nos territórios, para que suas experiências, demandas e perspectivas incidam de forma mais concreta sobre os debates e decisões que afetam suas vidas.
Para o Em Movimento, promover trabalho digno para as juventudes é contribuir para que o trabalho deixe de ser apenas um espaço de reprodução de desigualdades e passe a ser pensado como parte de um projeto mais amplo de equidade, bem viver e ampliação de direitos. É nesse horizonte que buscamos atuar: como uma infraestrutura de tradução entre vivências juvenis, evidências e decisão, capaz de fortalecer respostas mais efetivas, intersetoriais e comprometidas com a dignidade das juventudes.

