Justiça Racial
Falar de justiça racial no campo das juventudes é reconhecer que o racismo estrutura, de forma profunda e persistente, o acesso a direitos, oportunidades e condições de vida no Brasil. Essa dinâmica atravessa especialmente as trajetórias de jovens negros e negras, mas também de juventudes indígenas e outros grupos racializados, produzindo desigualdades que se expressam nos territórios, nas instituições e no cotidiano. Mais do que um recorte temático, trata-se de uma lente indispensável para compreender por que, mesmo sendo maioria, essas juventudes seguem entre as menos alcançadas por políticas públicas e por respostas institucionais à altura de seus direitos e potências.
A pesquisa Juventudes Negras (JUNE) reforça esse diagnóstico ao evidenciar que a juventude negra ocupa um lugar central na demografia brasileira e, ao mesmo tempo, segue submetida a desigualdades estruturais. Os dados da pesquisa mostram que o Brasil tem 45,3 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, dos quais quase 27 milhões são jovens negros, o que confirma a centralidade dessa agenda para qualquer projeto democrático de país. Ainda assim, as desvantagens se acumulam em diferentes dimensões da vida social: entre jovens de 19 a 29 anos, por exemplo, o rendimento médio mensal é de R$ 1.332,90 para homens negros e de apenas R$ 967,90 para mulheres negras, enquanto entre homens brancos chega a R$ 2.150,80; além disso, jovens mulheres negras dedicam, em média, 21 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado. No campo da violência, a JUNE também mostra que, em 2023, a taxa de mortes decorrentes de intervenções policiais foi de 3,5 por 100 mil entre negros, contra 0,9 entre brancos, evidenciando como raça e geração seguem definindo, inclusive, quem está mais exposto à violência letal do Estado.
Ao mesmo tempo, olhar para essas juventudes apenas pela chave da vulnerabilidade seria insuficiente. As juventudes negras têm sido protagonistas na produção de respostas coletivas às desigualdades que enfrentam, disputando narrativas, afirmando suas existências, produzindo conhecimento e ampliando o debate público sobre racismo, direitos e democracia. É a partir desse reconhecimento das desigualdades, mas também da potência política das juventudes racializadas, que o Em Movimento compreende a justiça racial como uma agenda estruturante de sua atuação institucional.
Como o Em Movimento estrutura sua atuação na agenda de Justiça Racial:
- Produção e tradução de evidências qualificadas sobre as desigualdades raciais que atravessam as trajetórias juvenis, conectando dados, pesquisas e vivências para qualificar o debate público.
- Fortalecimento de abordagens orientadas pela equidade, defendendo recortes, esforços e recursos específicos para juventudes negras, indígenas e demais grupos afetados pela racialização.
- Reconhecimento das juventudes racializadas como sujeitos políticos, e não apenas como beneficiárias de políticas, valorizando sua capacidade de produzir conhecimento, disputar narrativas e incidir sobre decisões que afetam seus territórios e suas vidas.
- Ampliação da circulação estratégica de evidências, para que dados e análises cheguem a organizações, redes, financiadores e tomadores de decisão com maior capacidade de gerar respostas intersetoriais e efetivas.
- Apoio à articulações entre juventudes, movimentos, pesquisadores e organizações, fortalecendo um ecossistema comprometido com a justiça racial, a democracia e o bem viver.
Para o Em Movimento, enfrentar o racismo estrutural não é uma agenda lateral. É condição para ampliar direitos, qualificar políticas públicas e fortalecer a democracia brasileira. Por isso, nossa atuação em justiça racial busca conectar experiências juvenis, evidências e processos de decisão, contribuindo para que as juventudes negras e indígenas sejam reconhecidas em sua centralidade e para que suas perspectivas incidam, de forma concreta, na formulação de respostas públicas, sociais e institucionais mais justas. ra reduzir desigualdades e construir caminhos que apontem para futuros socialmente justos e ambientalmente sustentáveis.

