Cresci vendo minha avó costurar o futuro com as próprias mãos

Retalhos descartados pelas indústrias do centro de São Paulo viravam vestidos, panos e sonhos. Aquilo me fez ver algo mais do que costura, vi que era resistência. Ela criou sete filhas, todas chamadas Maria, e foi delas que aprendi que o amor e o cuidado também são formas de luta. Minha mãe, Maria, herdou o dom de continuar. E eu, neta e filha de mulheres que aprenderam a fazer muito com pouco, entendi que transformar o mundo começa com o cuidado, dentro de casa, com as mãos que curam, cuidam e constroem, mesmo cansadas.

A história da humanidade é marcada por grandes transformações, muitas vezes impulsionadas por pessoas que desafiaram expectativas e lutaram contra sistemas que tentavam silenciá-las. Entre essas pessoas, as meninas negras têm desempenhado um papel crucial, apesar de frequentemente serem invisibilizadas.

Em uma conversa com Cida Bento, autora do Pacto da Branquitude, ouvi que o poder de decidir precisa estar nas mãos de quem sente na pele as consequências das decisões. Essa fala ecoou fundo em mim, porque venho de um território onde o rio que corre não é de vida, mas de enchente e medo. Ali, aprendi que o racismo ambiental (a desigualdade no acesso a recursos e na exposição a riscos ambientais) não é teoria: é cotidiano. Ainda assim, é nesse mesmo território que vejo brotar as sementes da mudança plantadas pelas mulheres negras.

E isso se reflete para além do meu território. Na minha jornada ativista, pude permanecer firme por ter ao meu lado figuras como Mahryan Sampaio, ativista e sonhadora, que me lembram todos os dias da força que existe no coletivo e que preciso me manter forte para realizar meus sonhos de infância. Desde cedo, meninas negras enfrentam desafios impostos pelo racismo, pelo sexismo e por desigualdades sociais. Então quando elas se reconhecem e se apoiam, algo muda, primeiro dentro, depois fora. Porque ao transformar o nosso próprio mundo, abrimos caminhos para que outras também possam caminhar com menos medo e mais voz.

As histórias que me atravessam também atravessam territórios e gerações. Do Jardim Pantanal à COP, carrego comigo o peso e a força do matriarcado que me formou. As vozes das mulheres que vieram antes de mim me lembram que resistir é o que sempre fizemos, mesmo quando ninguém estava olhando. Transformar o mundo não é bonito nem fácil. Porque transformar o mundo não é só mudar o que está fora, é lembrar que dentro de nós já existe um mundo inteiro pronto para florescer.

Cada passo dado por uma menina negra é um ato de transformação social, cultural e emocional. E é isso que as meninas negras fazem: transformam o mundo toda vez que se reconhecem, se unem e se permitem sonhar.